RUBENS DO AMARAL GURGEL – O homem e seu tempo

Nesta foto vemos Rubens do Amaral Gurgel ao centro. Ao seu lado direito, o grande Elvino Silva Filho, sua esposa e filha. Ao lado esquerdo, sua esposa Vanda Latorre do Amaral Gurgel e filha. O ano foi provavelmente 1976, no transcurso do III Encontro dos Oficiais de Registro de Imóveis do Brasil, realizado em outubro daquele ano na cidade de Serra Negra, São Paulo.

Quando recebi a notícia do passamento de Rubens do Amaral Gurgel, por uma nota publicada por José Renato Nalini, um assomo emocionado de memórias e reminiscências invadiram-me, trazendo de volta lances de minha passagem pelo 1º Registro de Imóveis e Anexos de São Bernardo do Campo.

Olhando atentamente para a foto que me foi enviada pelo filho, Bento do Amaral Gurgel, vejo-o como o vi na primeira vez que me deparei com aquele homem cuja inspiração e exemplo nos tocariam a todos no longínquo ano de 1974, quando assumiu a Serventia.

Eu havia sido contratado como auxiliar do Cartório de Registro de Imóveis e seus anexos – Juri, Menores e Corregedoria Permanente. Era uma época em que as atribuições de notários, registradores e escrivães confundiam-se. Todos éramos integrantes dos “órgãos da fé pública” – ou “oficiais da fé pública”, como dizia apropriadamente João Mendes de Almeida Jr. Considerávamo-nos integrantes da grande “família forense”.

O pequeno cartório que acomodava os anexos achava-se incrustado no antigo prédio do fórum, situado no Jardim do Mar, ao lado da Cidade das Crianças – um prédio imenso aos olhos do menino. Havia a Helenice, que comandava a diretoria do fórum e que me acolheria carinhosamente quando a família mudou-se para São Bernardo do Campo. Ali conheci a Júlia, seu filho Zé Maria, seu marido, que cuidavam, sozinhos, da limpeza do imenso prédio.

Cruzavam as salas empoeiradas escreventes, auxiliares, advogados, oficiais de justiça, todos azafamados, cujos nomes me vêm à lembrança como ecos de um tempo perdido. O velho Spina, com suas lentes fundo-de-garrafa e barriga saliente, João Francisco, Rubão, Orlando Nogaro. Diziam que Nogaro escrevia muito bem, e com as duas mãos, além de ser exímio desenhista. Havia ainda a Dona Carmelita na copa, ela fazia lanches e salgados, preparava o almoço e os acepipes da tarde dos juízes e promotores de justiça. Ela era mãe do Tadeu, nosso colega no Registro de Imóveis.

Em 1974, os anexos judiciais dos registros e notas foram extintos e os antigos funcionários puderam optar por seguir a carreira no foro judicial ou vincularem-se ao foro extrajudicial. As chamadas “especialidades” se formavam e singularizavam. Eu optei por me manter na serventia imobiliária, que logo seria assumida por Rubens do Amaral Gurgel, em 1974 no antigo prédio situado na Rua Marechal Deodoro, 275, 2 andar.

No ano anterior, em 15 de março de 1973, Rubens desistiria da pretensão de assumir o 5º Registro de Imóveis da Capital, desistência que foi homologada pelo Diretor Geral da Secretaria da Justiça (DOE de 06.03.1973, p. 8). Hoje parece-me incrível que tenha disputado justamente a remoção à 5ª Circunscrição Imobiliária da Capital, serventia que, mais tarde, eu assumiria por meio de um concorrido concurso público. Coincidências. Outra coincidência – sempre lembrada por Rubens – era que eu tivesse sido registrado no mesmo cartório de registro civil que seu filho querido, Bento, no mesmo ano de 1957.

Logo no ano seguinte, com base em um mandado de segurança, exerceu a opção de assumir o 1º Registro de Imóveis de São Bernardo do Campo (DOE de 9.1.1974, p. 5) por remoção do cartório de mesma classe de Jundiaí, nos termos do Decreto de 20 de fevereiro de 1974 do Secretário de Justiça do Estado (DOE de 21 de fevereiro, p. 4).

Lembro-me da primeira vez que nos encontramos. Era o ano de 1974 e eu havia decidido me exonerar do cartório por um motivo que hoje se me afigura fútil: como jovem mochileiro, pretendia viajar pela Bolívia e Peru. Lembro-me muito bem da expressão de surpresa e perplexidade de Rubens – “Para a Bolívia? Peru?”, inquiriu-me com uma expressão de incredulidade. Parecia não entender. De modo respeitoso, olhou para seu irmão Vicente, que estava ao seu lado, e virando-se para mim e fitando-me bem no fundo de meus olhos, disse: não decida nada agora. E logo emendou:  tudo tem um tempo determinado para todo o propósito debaixo do sol, parafraseando a conhecida passagem.

Nas semanas seguintes eu me convenceria que a ideia era mesmo um disparate. Acabei ficando e com o passar do tempo fui me apegando ao jeito sóbrio e firme do grande oficial que a cidade de São Bernardo do Campo conheceu nas décadas de 70 e 80.

Desde muito cedo, ele intuiu que o jovem cultivava interesses muito diversificados, além dos aborrecidos livros indicadores de RTD. Falávamos de fotografia, de cultura e arte. Ele me julgava um tanto extravagante, mas imagino que percebia em mim certa ingenuidade e pureza. Foi sua decisão pessoal encarregar-me de instalar e operar o serviço de microfilmagem no cartório. Isso foi lá pelos idos de 1975, 76. Eu me tornaria técnico em microfilmagem e operaria as máquinas importadas e instaladas numa sala própria da serventia. Era uma grande aventura mexer com filmes, imagens, refugiado numa sala solitária, eu e minhas máquinas!

Rubens era um homem sisudo, sério, evitava discussões frívolas, era sóbrio e circunspecto. Sempre tinha uma palavra de sabedoria. Era firme nas decisões, todos os escreventes o respeitavam. Era admirado igualmente por magistrados e por seus pares. Foi um jurista especialmente talhado para o mister registral. Formado nas Arcadas, desempenhava suas funções com denodo e apuro técnico. Era um homem dotado de muito bom senso. Enfim, um cartorário de fina cepa.

Sei que há encontros decisivos em nossas vidas. Alguns lances do destino nos transformam, empurram-nos e nos ajudam a definir nossa trajetória pessoal e profissional. O que teria sido daquele jovem arrebatado e aventureiro se acaso tivesse se embrenhado nas sendas de uma aventura na Bolívia? Jamais saberei, ninguém saberá. O que sei é que, apoiado pelo Dr. Rubens Gurgel, galguei uma carreira de muitas alegrias e realizações no foro extrajudicial. Fui, afinal, um registrador imobiliário, um seu par, segui seus passos e lições de vida. Posso lhes dizer que ele foi meu mentor intelectual, a quem devo muitíssimo.

Rubens faleceu no dia 6 de março de 2024. Deixo aqui registrado o meu reconhecimento e o agradecimento pelo que pôde fazer por seus auxiliares e escreventes cartorários. Sou-lhe grato por me ter dado impulso a essa profissão que amo e à qual devotei os melhores dias da minha vida profissional.

Um comentário sobre “RUBENS DO AMARAL GURGEL – O homem e seu tempo

  1. Aprendi que “ninguém se faz sozinho”. Você também faz parte disso. Temos muito que agradecer à essas pessoas que nos indicaram o caminho. Feliz oportunidade para agradecimento. E você fez jus. Honrou. Parabéns.

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