Eu sou meigo no assunto, doutor…

O Diário Oficial chegava um dia após pelo correio. A decretação da intervenção deveria ser comunicada vis-à-vis. Todo o cuidado era pouco. Mas tudo havia transcorrido com relativa calma. A fama de violento e altercador do oficial não se confirmou. Recebida a portaria, o velho registrador retirou-se respeitosamente das dependências do cartório, colocando-se à disposição do colega que o substituía.

Nos dias que se seguiram, a imprensa local alardeava, até pelos auto-falantes da praça, o fato verdadeiramente novidoso. Decorridos dois ou três dias, o cartório viveu uma experiência singular: muitas pessoas traziam seus títulos para confirmar o registro e o domínio, ocasionando um colapso nas atividades corriqueiras. “Doutor, eu nunca vi tanta gente nesse balcão”, confessava o escrevente admirado. O interventor, azafamado pelas múltiplas atividades, mal dava conta de atender aquelas humildes pessoas que não se contentavam em ser atendidas pelos funcionários, velhos conhecidos na cidade. Queriam o “Dr. interventor”. Mas o melhor estava por vir: primeiro os escreventes, e por fim o próprio interventor, todos começaram a sofrer ameaças telefônicas. Era um vale-tudo, ligavam para o cartório, para a casa dos escreventes (segundo relatavam), para o hotel onde estava hospedado o interventor, ameaçando-o de morte. Tamanha era a apreensão, que todos se acautelaram. O interventor passou a andar armado.

Na manhã seguinte, um calor tórrido causava uma sensação de sufoco insuportável. De repente, adentra as dependências do cartório um sujeito mal encarado. Chapéu enterrado na cabeça, capote, botas terrosas e um olhar assustador.

Para um citadino como o interventor, era o perfil acabado de um jagunço. Quedou-se ali, num canto mal iluminado, inerte, observando. Todos ficaram inquietos. O interventor espiava o 38 prateado ao alcance da mão. Tensão. Decorridos alguns minutos, o desconhecido avança decidido sobre o balcão e mete as mãos no capote. Inesperadamente saca uma escritura puída, amarelada pelo tempo e diz: “discurpa, doutor, mas eu sou meigo no assunto…”.

O interventor demorou alguns segundos para entender completamente a cena e ainda balbuciou – “hein?”. O pobre emendou instantaneamente: “sou meigo no assunto, doutor”.

Suspiro geral, e o oficial ainda comentou: “meigos e ignorantes somos todos nós, meu senhor”.

Texto publicado originalmente no Boletim Eletrônico do IRIB, edição n. 189, 4/4/2000.