
Os velhos cartórios eram feitos à imagem e semelhança dos escritórios de mosteiros medievais. Dobrados sobre estações de cedro, dispostas numa grande sala, deitávamos os pesados livros de registro sobre as escrivaninhas e neles inscrevíamos lentamente os títulos protocolados.
O tempo corria vagarosamente, como o pôr do sol sob as persianas do velho casarão do cartório. Diante de nossos olhos atentos passavam inventários, partilhas, hipotecas, penhoras, arrestos, arrematações… Quantos dramas humanos nos revelavam, quantas alegrias e tristezas, tantas chegadas, tantas partidas… lances da vida representados em rios de símbolos e de sentidos. Sentíamo-nos partícipes da grande família humana, retratávamos os lances do destino inscrevendo-os nos pesados livros de registro.
Cabia-nos recolher e coligir escrupulosamente os elementos de transcendência real para plasmar os atos de registro. Não se enganem, senhoras e senhores, o registro era um ato de criação. Não se pense que os antigos livros eram de mera transcrição, cópia literal, verbo ad verbum, das escrituras públicas. Nunca fomos meros amanuenses; realizávamos transcrições das transmissões, não reproduções literais de títulos e documentos. Éramos de certa forma livres, mas sempre advertidos pela tradição e pelo decano do ofício: “a liberdade é consentimento numa ordem”. Lavrávamos os atos de modo pessoal, mas em estrita observância aos ditames da praxe multissecular. Sou capaz, ainda hoje, de reconhecer o estilo pessoal de cada um: a elegante caligrafia do Sr. Andrônico, a escrita robusta e precisa do Bepo, elas desfilavam garbosamente em contraste com os garranchos do Bodão.
Às vezes nos distraíamos junto à pia do scriptorium, desmontando e lavando a caneta tinteiro. A tinta se esvaía na água corrente e carregava consigo nossas angústias e tristezas. Outras vezes, substituíamos a pena cansada e viciada, deixando que o profundo azul-royal da tinta Quink tingisse os dedos. Depois de tudo, era preciso desbastá-la, buscando o exato eixo para que deslizasse suavemente sobre o papel. As penas, assim como os escreventes, se tornam melhores com a lavratura diuturna.
A caneta reconhece o bom escriba e a ele se dobra, dócil e gentilmente. Aprendi num velho cartório que a caligrafia nos torna homens muito melhores.
Outras vezes nos dedicávamos à árdua tarefa de decifrar a escrita irregular de um velho escrevente alcoólatra. Era preciso adivinhar o sentido do texto a partir dos garranchos e garatujas que se tornavam tanto mais esotéricos quanto mais avançada era a hora do dia. Pelas manhãs, sua letrinha serifada era nítida e elegante; já no começo da tarde, porém, com o raciocínio enturvado pelo álcool, o velho escriba derrapava, transbordava as margens tracejadas de linhas e colunas rubras e avançava sobre os vastos domínios que se acham à margem – o território livre das averbações. Hic sunt leones! O velho escrevente, no meio da tarde, já não se sustentava e esboroava feito um meteoro torpe sobre o livro.
Ingressei no nobile officium ainda muito jovem. Inscrevi, transcrevi, averbei… lavrei a verba elegante da praxe cartorária em livros de registros manuscritos. Tenho dito aos meus colegas de ofício: “vivemos uma espécie de crepúsculo do ofício registral”. Isto dizemos para nós mesmos, velhos escribas, e rimos, rimos feito crianças. “Tudo o que no mundo existe começa e acaba num livro”, todos sabemos – especialmente nós outros, os escribas, que lavramos a nota inaugural e final da sinfonia inacabada dos homens.
Quem nos lê, quem ainda nos lerá? Haverá quem nos compreenda essencialmente? Ou seremos tragados e traduzidos por uma máquina? A lavra perita que encarna o espírito do tempo (e de certo modo o traduz) é varrida pelo vento, como as folhas secas no quintal. É tão lindo e triste o ocaso. Todo o referido é verdade e dou fé.
Crônica revista e atualizada para publicação no site Migalhas Notariais e Registrais: https://www.migalhas.com.br/coluna/migalhas-notariais-e-registrais/399325/

Me senti personagem do belo texto. SJ sempre pensando. Ícone prá todos nós.
Querido Natal. Sempre bom receber notícias suas. Abraços!
De modo semelhante, compartilho de sua trajetória, seguindo-a com admiração.
” para todo propósito há um tempo, o restante são vaidades …. ” (Eclesiastes).
Pois é Dr. Sérgio… aqui vão-se “4.9” já completados. Não tal qual a vossa trajetória, onde iniciei como Notário e há poucos anos no R.I., sem comparações. E não “me oportunizei” (mesmo que a vontade tenha cantado muito alto), a escrever… Mas de há muito me preocupa, vosso preocupardes: “… e agora vivo para testemunhar a derruimento do edifício da fides publica pela vaza da novilíngua computacional, a pesada onda que suplanta a segurança jurídica pela vaga tecnológica e econômica”, em suas várias narrativas neste veículo admirável e prazeroso de leitura. O que “o preocupas” que nós devamos nos preocuparmos? rsrsrsrsrs abraços.
Continue escrevendo meu querido amigo … Belo texto.
De uma sabedoria sem precedentes, GGrande Registrador com uma visão além do seu tempo.
Querido Sergio, como sempre tuas crônicas são deliciosas. Me identifiquei no texto e sinto-me lisonjeado com tuas palavras. E como você diz, não éramos meros copiadores, pois fazíamos parte de um processo vital. Eu viajava na escrita e sempre me perguntava como seriam aquelas pessoas que compravam e vendiam esses bens, às vezes pertencentes de longa data à mesma família. Como seriam essas pessoas? Como seriam suas vidas? Felizes, infelizes? Havia uma família dona de um loteamento e, por conta disso, os registros eram frequentes, com mais de uma vintena de vendedores. Mas um deles me chamava a atenção, pela especialidade do nome: YP. Nunca o conheci, mas também não esqueci seu nome. Coisas de um cartorário sonhador.