A inteligência artificial é inteligência?

Francois Truffaut - Fahrenheit 451

Esta é uma boa pergunta que deveria inaugurar qualquer discussão séria que envolva os avanços tecnológicos na área da ciência da computação cognitiva. Convido o leitor a refletir sobre alguns temas inquietantes na voz de um advogado paulistano e registrador aposentado (compulsoriamente), Dr. Ermitânio Prado.

Ermitânio foi um registrador por longos anos, lavrou milhares de atos de transcrição, inscrição, averbação, matriculou e procedeu a registros variados. Foi aposentado compulsoriamente, quando então passou a atuar como advogado especializado em direito civil. Por fim, tornou-se o “maior especialista em direito revogado do país”, como disse certa feita um ilustre desembargador.

Os leitores do blogue Observatório do Registro já o conhecem bem. Mora na Avenida São Luís, nos espaçoso apartamento fornido com móveis franceses e belgas do começo do século XX. Vive retirado, às voltas com suas memórias e reminiscências, perplexo com os avanços da tecnologia sobre domínios que considera essencialmente humanos.

Visito-o todas as quintas-feiras, ao cair da tarde. Ele me aguarda com a mesa posta na varanda envidraçada, onde nos serve um chá aromático e se deixa levar numa conversação prolixa, às vezes delirante. Eu o acompanho até onde possa, ouço-lhe atentamente, atalho aqui e acolá.

– A inteligência humana é um mistério, diz ao me receber no vestíbulo. Como a intuição, a inspiração e a criatividade. Ela se revela num átimo fulgurante do gênio humano, irrompe na alma com o poder de explosão de estrelas nascentes. E segue:

– As máquinas não são capazes de intuir e inspirar-se. Elas não sonham! São oráculos que nos dão respostas recolhendo e combinando os dados do passado, mas note bem, escriba: um passado que não passou. Os fatos, em si mesmos considerados, são inescrutáveis em sua radical substancialidade, revelam-se custosamente pela insaciável sede de conhecimento dos homens. O passado se afunda em insoldáveis mistérios e as máquinas, em relação a eles, são como pitonisas mendazes, artefatos da pós-modernidade que nos revelam um passado que não passou, devolvendo-nos o presente em forma de simulacros. As máquinas capturam, ordenam, combinam fatos representados por bits e bytes, mas sempre há um mistério profundo que se interpõe entre os fatos da realidade e a representação digital. As máquinas são verdadeiramente diabólicas, produzem exabytes, zettabytes, de dados que ao final nos revelam apenas um mundo gerado por algoritmos que se espraiam e radicam no imenso labirinto especular feito de silício e circuitos por onde transitam e dados. Nos confins da hiper-realidade, já não há um fio de Ariadne que nos possa resgatar; não há beleza, nem verdade, nem mistério. Não sonhamos com dados, escriba!

Ermitânio assombra-se com as próprias ideias. Diz que a máquina se autoconstrói e se torna cada vez mais rápida, eficiente e surpreendente em vários domínios do conhecimento. Dá-nos respostas a perguntas que nunca foram feitas, e isso faz os humanos se sentirem arrogantes, poderosos. O Velho chama isso de “pensamento transumano rizomático”, e diz que o super-homem digital é o Golem da modernidade.

O Velho se levanta, cofia as cãs, lembra-se de uma passagem clássica da distopia Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Dá voz ao Capitão Beatty, a propósito da adorável Clarisse McClellan: “Ela não queria saber como uma coisa era feita, mas por quê. Isso pode ser embaraçoso. Você – agora o Capitão dirige-se à bela jovem – pergunta o porquê de muitas coisas e, se insistir, acaba se tornando realmente muito infeliz”.

Ermitânio diz que sentiu compaixão pela sorte da pequena Clarisse e chegou até mesmo a escrever uma longa carta ao Sr. Bradbury, criticando-o por tê-la feito submergir na irrelevância da trama, carta que jamais foi respondida.

– Nos contentamos com o fato de a máquina nos revelar o quê, mas com isso abdicamos dos porquês. O homem sem perguntas apagou o passado, descartou a tradição. Até mesmo os seus sonhos e pesadelos são agora tramos gizados pela IA que conduz os homens a um paraíso feito de silício, sem passado, nem futuro, condenando-os a um presente persistente e seriado. Um eterno retorno.  

Lembrei-me imediatamente do livro Big Data, de MAYER-SCHONBERGER: “A causalidade não será descartada, mas está sendo retirada de seu pedestal como a fonte primária de conhecimento. (…) Então seria melhor se parássemos de tentar explicar os motivos por trás das correlações: o porquê em vez de o quê” (Big Data. São Paulo: Elsevier).

Pergunto-lhe, depois de um longo silêncio: a máquina poderá substituir o ser humano no exercício das atividades próprias de juristas? A pergunta é cavilosa. Sei de suas restrições a respeito das recentes mudanças na Lei de Registros Públicos que visaram a modernização do sistema registral pátrio. Provoco-o num ponto sensível. Sei que para ele a reforma sacrificou a qualificação jurídica, pessoal e indelegável, em troca da algoritimização do processo registral, desumanizando o nobile officium. Entretanto, o velho preferiu calar-se.

Fez-se um longo silêncio na varanda. Ouço sua respiração ofegante, o tic-tac do Trenkle Uhr na parede da sala, percebo gotas tamborilando na janela, o céu paulistano que inesperadamente se fechava em copas. A noitinha desmaiava sobre a cidade que murmurava abaixo da sacada. Ameaço levantar-me, suspiro melancolicamente, o ar parecia pesar no ambiente. De repente, o Velho diz que agora se dedica a cultivar o silêncio. “O silêncio”, diz ele, “é o remédio eficaz contra a palração hipnótica de homens vazios e a contenção eficaz a respostas torrenciais produzidas por máquinas a perguntas que já não são feitas”.

Despedimo-nos nas vésperas do Natal em silêncio obsequioso. O velho registrador me fez compreender que há notas musicais que não soam, mas que, no entanto, vibram no interior de cada um de nós. Intuímo-las. Adivinhamo-las. São especialmente verdadeiras na sua radical ausência. A máquina não pode ouvir o Magnificat de Bach e emocionar-se com a nota silente que anuncia o deserto feito pelos poderosos e suas máquinas. Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles

Bom ano novo, Dr. Ermitânio. Sigamos em silêncio nesta passagem sagrada. Que o mistério do Gólgota nos livre da algaravia torpe que nos aliena de nós mesmos e nos afaste da máquina que condena o homem ao olvido de tudo que é simples, verdadeiro, belo e essencial.

Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. Casa Amarela, 24 de dezembro de 2023.

O texto foi originalmente publicado na Revista “Cartórios com Você”, São Paulo: AnoregSP – edição 33, Outubro/Dezembro 2023. (Aqui com pequenos ajustes). Acesso: https://sinoregsp.org.br/wp-content/uploads/2024/01/Cartorios-com-Voce-33.pdf

3 comentários sobre “A inteligência artificial é inteligência?

  1. Se máquina não sente, não pode criar, inovar, não pode ter insights como Einstein, jovem ainda, afastado da escola porque não se adequava ao sistema educacional de então. Livre das amarras do conservadorismo científico, ao observar a luz, pedalando pelos campos, começou a construir as que seriam as maiores teorias de todos os tempos: relatividade restrita e geral. Máquina não pode transcriar a Criação do Mundo (Gênesis 1,1-2,4), diretamente do hebraico, como o fez magistralmente Haroldo de Campos – e que li velozmente, no antigo e saboroso caderno Mais, da Folha, que recebia semanalmente no interior da Bahia, em Barreiras, vindo o exemplar de Brasília, por meio da Viação Paraíso. Aos 16/17 lia mais em um mês do que se lê hoje em anos, enredados que as pessoas estão pelos algoritmos que imbecilizam.

  2. Caro Lafaiete, velho companheiro de viagem. Eu ia aos lançamentos dos livros dos irmãos Campos (e do Décio também) numa pequena livraria da Avenida Paulista, quase confluência da Consolação. Ali ao lado, no Belas Artes, assisti aos melhores filmes do Fellini, ao lado do querido Jorge Odara, ativista cultual, ator e um amigo terno e carinhoso que se foi.
    Lembro-me que após a sessão de Amarcord, descemos a consolação montados numa velha CG 125. Ao contornar o Caetano de Campos, rumo à São Luís (a mesma do nosso querido Ermitânio), derrapamos e fomos os dois ao asfalto. Jorginho acabou ralando os cotovelos e eu, atônito, buscava entender o que havia ocorrido. Ela ria, aquele riso banguela, dizendo que não merecia porque jamais teve “dor de cotovelo”. Ele falava pelos cotovelos e não foi o acidente que o calou. Tenho uma história hilária para contar a respeito da visita que fizemos à sua casa no Rio de Janeiro, em Marechal “Rérmes”…
    O tempo passava e as informações nos vinham feito ondas. Tenho até hoje alguns exemplares assinados com dedicatória. Leio agora a letrinha do Haroldo.
    Sim, de todos, destacadamente, brilha a figura de Haroldo. A tradução do Eclesiastes. Suas transcriações geniais são um legado para as futuras gerações.
    O tempo trouxe e leva os poetas, Lafaiete. Nós resistimos navegando neste rio que serpenteia e revoluteia. Ele há de levar a tudo e a todos, mas que tarde!
    Sei que ele pode tudo, Lafaeite, menos arrancar de nós o que nos faz tão únicos e singulares.

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