Amizades Improváveis

“Em comemoração de uma amizade improvável, em meio com muitos alfarrábios e muitas citações de nossos poetas” – assim começa o recado da jurista e poeta S. e de seu parceiro J. que acabo de receber.

Que lhe posso dizer, minha querida amiga improvável? A vida é mesmo imponderável.

Neste interregno dos setênios zenitais (7 x 7) talvez o improvável seja provado metafisicamente. E aí viveremos de coincidências significativas. À falta de outros nomes e pronomes!

A mulher chorou no balcão

Meu Deus! Que maldade o sistema legal pode ter feito com essa Senhora que chora profundo no Balcão?

A mulher chora ao receber sua escritura definitiva.

Chega de notas devolutivas e exigências legais! queremos direito de propriedade, propriedade humana, concreta, viva. Afinal, este Oficial é de Registros, de Segurança, de Justiça, duas faces da mesma moeda, moeda esquizofrênica, em tensão consigo mesmas.

Não é possível, como poderemos ajudá-la, será que perdeu algum ente querido, será que a exigência é intransponível, mesmo absurda? Acho que vou até o balcão… Acho melhor não, sistemas, sistemas, sistemas, são sistemáticos, liberta-nos, escraviza-nos.

Depois a escrevente esclareceu-me: a Senhora não retirou uma Nota Devolutiva, retirou sua escritura registrada e chorava por pura emoção, simples que era, chorava e se desculpava por não conter a alegria de ver seu nome bem grafado na matrícula e a confirmação da atendente. Era, pela primeira vez na vida, proprietária da casa!

Eu sou meigo no assunto, doutor…

O Diário Oficial chegava um dia após pelo correio. A decretação da intervenção deveria ser comunicada vis-à-vis. Todo o cuidado era pouco. Mas tudo havia transcorrido com relativa calma. A fama de violento e altercador do oficial não se confirmou. Recebida a portaria, o velho registrador retirou-se respeitosamente das dependências do cartório, colocando-se à disposição do colega que o substituía.

Nos dias que se seguiram, a imprensa local alardeava, até pelos auto-falantes da praça, o fato verdadeiramente novidoso. Decorridos dois ou três dias, o cartório viveu uma experiência singular: muitas pessoas traziam seus títulos para confirmar o registro e o domínio, ocasionando um colapso nas atividades corriqueiras. “Doutor, eu nunca vi tanta gente nesse balcão”, confessava o escrevente admirado. O interventor, azafamado pelas múltiplas atividades, mal dava conta de atender aquelas humildes pessoas que não se contentavam em ser atendidas pelos funcionários, velhos conhecidos na cidade. Queriam o “Dr. interventor”. Mas o melhor estava por vir: primeiro os escreventes, e por fim o próprio interventor, todos começaram a sofrer ameaças telefônicas. Era um vale-tudo, ligavam para o cartório, para a casa dos escreventes (segundo relatavam), para o hotel onde estava hospedado o interventor, ameaçando-o de morte. Tamanha era a apreensão, que todos se acautelaram. O interventor passou a andar armado.

Na manhã seguinte, um calor tórrido causava uma sensação de sufoco insuportável. De repente, adentra as dependências do cartório um sujeito mal encarado. Chapéu enterrado na cabeça, capote, botas terrosas e um olhar assustador.

Para um citadino como o interventor, era o perfil acabado de um jagunço. Quedou-se ali, num canto mal iluminado, inerte, observando. Todos ficaram inquietos. O interventor espiava o 38 prateado ao alcance da mão. Tensão. Decorridos alguns minutos, o desconhecido avança decidido sobre o balcão e mete as mãos no capote. Inesperadamente saca uma escritura puída, amarelada pelo tempo e diz: “discurpa, doutor, mas eu sou meigo no assunto…”.

O interventor demorou alguns segundos para entender completamente a cena e ainda balbuciou – “hein?”. O pobre emendou instantaneamente: “sou meigo no assunto, doutor”.

Suspiro geral, e o oficial ainda comentou: “meigos e ignorantes somos todos nós, meu senhor”.

Texto publicado originalmente no Boletim Eletrônico do IRIB, edição n. 189, 4/4/2000.