Notários, registradores e poetas

Murilo Mendes, notário e filho de registrador?
Murilo Mendes, notário e filho de registrador?

O notário paulista Marco Antonio Greco Bortz foi o porta-voz de um convite lisonjeiro para integrar o Conselho Editorial de uma publicação a cargo do Colégio Notarial do Brasil. O convite me foi formulado pelo CNB, Seção de São Paulo, por seu Presidente, o notário  Ubiratan Pereira Guimarães.

O convite me colhe de surpresa. Apesar de ter percorrido uma larga carreira  nos Registros Públicos bandeirantes, nunca deixei de apreciar os caminhos, verdadeiramente impressionantes, da formação da língua portuguesa e do desenvolvimento do notariado português e brasileiro, fatos que guardam uma estreita e insuspeita relação. 

Acha-se muito além de minhas forças e ultrapassa as modestas capacidades deste amanuense dar a lume um robusto estudo sobre ambos os temas, desentranhando o fio que favoreça uma noção mais exata da importância da lavra tabelioa para a cultura pátria. Contento-me a indicar algumas pistas, formular algumas hipóteses para ulterior pesquisa. Na verdade, delicio-me em transpirar parte das minhas leituras erráticas neste estimulante jogo de dados com a história.

Domingo é dia de descanso e de leitura. É dia do Senhor. Gostaria de recomendar Murilo Mendes, o poeta e cronista católico que integra a constelação da segunda geração de modernistas – ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Vinícius de Moraes, dentre outros.

Além de poeta, Murilo Mendes foi excelente cronista. Um poeta que lavrou, com uma pena delicada, as mais belas páginas de uma prosa elegante e precisa.

Tenho uma especial predileção pelos cronistas. O verdadeiro cronista apanha, com a rara sensibilidade do poeta que se arma e guarda dentro de si, pequenos traços do cotidiano e nos desvela um mundo rico de detalhes os quais, embrutecidos que nos encontramos pela palavra dura, se nos escapam como o lusco-fusco de uma tarde radiosa. A poesia se desvanece como pensamentos lavados por um grande rio… 

Nunca deixo de me lembrar do grande cronista que é o registrador de Araraquara, João Baptista Galhardo, que nos brindou o ano passado com o seu delicioso O vendedor de camomila (São Paulo:  Zerocriativa, 2008, 404 p.). Aliás, sobre João Galhardo e sua prosa irresistível, encardida de uma humanidade tocante, estou devendo um post mais estendido, o que me proponho a realizar pelos estreitos vínculos afetivos que me ligam ao grande registrador araraquarense. Falar de João Baptista é dar um testemunho pessoal sobre este ser humano gigantesco, que mais avulta quando conhecemos sua verdadeira natureza humilde e sábia.  

Voltando a Murilo, depois de muitos anos fechado sobre si mesmo, neste domingo chuvoso cai-me, novamente, às mãos, o seu livro de memórias A idade do serrote.

É um livro que se abre delicadamente ao coração do leitor. 

Antônio Cândido dirá com acerto que neste livro “a prosa tem um ímpeto de tal maneira transfigurador, que nós nos sentimos dentro da poesia, como um primeiro fator que alarga o restrito elemento particular da recordação pessoal”. (CANDIDO, Antonio. A educação pela noite & outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987, p. 57). E emenda:

talvez Murilo Mendes seja o poeta mais radicalmente poeta da literatura brasileira, na medida em que praticamente nunca escreveu senão poesia, mesmo quando escrevia sob aparência de prosa. A sua capacidade de reflexão e debate era grande, mas ele a exerceu sempre de modo poético […]. (id. ib.).

Sobre Murilo, dediquei algumas crônicas: Murilando o indizível e Murilo Mendes – ora pro nobis!. Sempre o soube poeta, mesmo quando me deliciava com suas crônicas.

Murilo Mendes, notário?

Mendes, notário? O pai, registrador? Vejamos com mais cuidado.

Murilo Mendes devota ao pai um carinho que é devidamente registrado em A idade do serrote

Meu pai, grande coração comunicante. Servidor público. Do próximo. Escrivão do registro de títulos e hipotecas da cidade de Juiz de Fora. (IS, p. 24).

Um pai que é amado por ele e carinhosamente respeitado pela comunidade. Tocante é a crônica que lhe dedica nas derradeiras páginas de seu livro autobiográfico. Na crônica – Meu pai -, dirá ser o escrivão do registro de títulos e hipotecas um “admirável calígrafo e epistológrafo”. Ao final de uma larga trajetória, encontrará em si o pai que lhe descobriu o “olho precoce”. Os fios da vida se reatam num diálogo perene.

 Talvez estes sejam os traços marcantes de uma personalidade que se apurou pela escritura registral. “Ouvindo-o nunca reparei que lhe faltava o canudo de doutor”, dirá ainda, confirmando que os verdadeiros notários, escrivães, registradores, tabeliães, se formam pela prática diuturna de sua escrita infinita e não pelas escadarias ligeiras e custosas dos vestibulares concursais.

O pranteado pai, Onofre Mendes, como Murilo diz, terá sido o “escrivão” do Registro Hipotecário juizforano. A conferir com o registrador local. Em todo o caso, deparamo-nos com uma terminologia que não guarda estrita correspondência com a qualificação legal do profissional encarregado desse nobile officium tabelião especial do registro (Regulamento de 1846) e oficial do registro, após a reforma de Nabuco. Não passamos, tanto quanto saiba, pelo “escrivão hipotecário” – salvo na atividade que pode ser considerada tributária das Ordenações, onde há a conjugação da escrivania do judicial com o tabeliado. Terá sido, portanto, escrivão anexo do Registro Geral.

Por outro lado, a biografia de Murilo Mendes, confiada à autoridade de Alfredo Bosi, traz a interessante passagem  de ter ele sido notário em “seus melhores dias”. Um poeta guarda-livros e notário, portanto:

Foi sempre um homem inquieto passando por atividades díspares: auxiliar de guarda-livros, prático de dentista, telegrafista aprendiz e, em melhores dias, notário e Inspetor Geral de Ensino. (BOSI. A. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, p. 446).

Essas indicações, que podem ser hauridas de A idade do serrote – à exceção da informação acerca de sua atuação como notário – merecem uma investigação aprofundada. Suspeito que aqui devesse ser grafado escrivão, no sentido das Ordenações. A verificar.

Murilo Mendes foi um grande poeta. Escreveu crônicas como só um verdadeiro poeta faria; amou como poeta. Viveu como poeta e resiste ao tempo e à irrelevância em seus livros imorredouros. Terá sido um escrivão atento, aliviando dos formulários tabeliados e judiciários a humanidade que pulsa densa, viva, intensa, como sempre versificou, para a sorte de seus inúmeros e eternos leitores.

Um comentário sobre “Notários, registradores e poetas

  1. Sérgio Jacomino é dotado, dentre outras, de duas qualidades excepcionais, trata-se de profundo pesquisador e de um escritor refinado e sensível. Creio que não há em solo pátrio quem conheça a história do notariado como Jacomino. Resgata, assim, a nobreza da atividade do notário (posto que registrador e notário ostentam a mesma origem) aos níveis de outrora, como relata João Mendes de Almeida Junior: “… na idade média o notariado tomou um novo aspecto, tornou-se uma profissão nobre, exercitada pelas pessoas mais cultas e mais doutas do tempo, foi um degráo para as mais altas honras, e na cidade eterna entrou na nova e explendida côrte dos Papas” (RDI 40/45). O notariado bandeirante orgulha-se de poder contar com Jacomino no Conselho Editorial de sua revista. Murilo Mendes, João Baptista Galhardo, Sérgio Jacomino, são cultores da língua pátria que engrandecem o notariado moderno (inclusos os registradores neste conceito). Quiçá seja este o prelúdio de novos tempos.

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