À nau vicentina, Srs.!

gilvicente

O Velho Ermitânio Prado anda enfermiço. É uma doença miúda, vil, traiçoeira, enliçada com o venerável Cronos.

Ontem pude constatar o quanto se acha aplastado, esmagado pelos recentes acontecimentos.

Pouco antes de sair do apartamento, ouvi-o naquela parolagem infinda – típica daqueles que se acham em estado febril.

Dou-lhe voz e não lhe quito o sentido. O Leão fala aos ventos e sopra segredos ao pé d´ouvido de quem queira – ou mal lhe queira.

À nau vicentina, Srs.!

À barca, à barca, senhores! Veniredes a la mano! – clama o escriba que falseia a pena e adultera a flâmula, tudo em troca de boa fama, mesa e cama. Diz o velho lúbrico:

– vós me veniredes a la mano, a la mano me veniredes!

O escriba folga em ser adorado,
retorna com garbo, vaidoso, inebriado.
Revolve a guia da nau funesta,
fiado tão só em sua perene gesta.

Proclama com voz fanha:

Fiai-vos em nós, que somos alçada voz,
aprumai-vos defronte o mar atroz.
publica fides não nos abandone,
enfune-se a vela ao sopro de Bóreas.

Oh blandícia, pura delícia!
Encante o tolo utente,
seduza-o com virgo postiço, entrementes,
tenhamos Poder e Graça firmes e assentes.

Trazei-me o desejável frumento
e eu lhes direi o Direito!
Trazei-mo com urgência o emolumento,
que é grande aflição o vosso pleito.

Fala do falaz

Barca de tristura e de amargura infinda,
à porta avulta mesuras e servil doçura,
acolhe a pobres coitados,
já sem glórias e de memória faltos.

Dai-lhes Saturno o unguento e o quebranto
e ainda de sustento o tal frumento!

Epílogo:

Morre o idiota de merdeira, de estupidez e de cegueira.
Mesmo moribundo, o onzeneiro brada altaneiro,
esganiça ao dono dos altos, do fundo e da beira:

Rey Mundo, quero aí tornar e trazer o meu dinheiro!

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