A “terceira margem do rio”

"In Search of the Castaways; or Captain Grant's Children". Jules Verne drawn by Édouard Riou, 23/6/1868.
“In Search of the Castaways; or Captain Grant’s Children”. Jules Verne drawn by Édouard Riou, 23/6/1868.

Li os dois artigos, aproveitando a tarde modorrenta logo após o almoço frugal. São textos densos, duros e belos como os cristais. Não se engane o leitor com o número reduzido de páginas e as entrelinhas duplicadas em tipo caprichado.

Veio-me à mente uma imagem: uma pedra atirada nas ondas da internet, como as garrafas lançadas ao mar. Na superfície das redes, tão fugazes, tão líquidas e instantâneas, não há polimento, apenas ignorância e desimportância. Mas a pedra desce. Deixa a espuma à tona e alcança o leito de um grande rio, onde talvez permaneça por muito tempo, joia escondida, segredo entesourado para uma época que supere os anacronismos. Como as mensagens na garrafa de um tempo romântico e misterioso, endereçadas, disse alguém, a quem as encontre.

O que importam as pedras lançadas ao rio? Importa que remanesçam. A corrente as faz rolar, chocar-se e atritar com a areia e com outras pedras… Mas cada uma segue sendo a mesma pedra, provada pela correnteza. Assim me parecem os belos seixos que tenho à minha frente agora: neles se adivinham o tempo e as correntezas que lhes retiraram os ângulos agudos.

O tempo, juiz severo dos anacronismos, é também o artífice dos seixos. Ao rio caberá dizer o que permanece. Por ora, fico na “terceira margem do rio”, secreto destinatário do que a água me trouxe nesta tarde.

EP